14 de agosto de 2017

O pecado da murmuração


Lembro-me de uma vez em que estava dando os últimos ajustes em um trabalho importante, que deveria ser entregue no dia seguinte e, quando já estava perto de acabar, meu computador simplesmente apagou e eu não conseguia mais ligá-lo. Apertava o botão insistentemente, sem acreditar que aquilo estava acontecendo. Quanto mais eu tentava e ele não ligava, mais chateada eu ia ficando. Isso foi motivo suficiente para que eu reclamasse da vida, do mundo e de toda a engrenagem do universo, afinal, porque aquilo foi acontecer justamente naquele momento? Porque não apagou depois que eu tivesse terminado e salvo o trabalho no e-mail? Questionamentos como esses eram como combustível para minha revolta e amargura contra aquela circunstância.

Lembro-me também de ter pedido a Deus que me ajudasse. No primeiro momento, quando o computador desligou, eu roguei com medo: “Meu Deus, o que foi isso?”, mas na segunda vez que me dirigi a Ele, eu já estava envenenada pela irritação que estava brotando: “Deus, isso não está acontecendo!” Eu dizia sem conseguir acreditar, mas o que eu realmente estava dizendo era: “Deus, porque o Senhor deixou isso acontecer?” Mesmo que essas palavras nunca tenham saído da minha boca, no meu coração eu estava questionando a falta de ação de Deus em me ajudar, como se Ele tivesse obrigação em fazer isso. Depois de algumas ligações, em duas ou três horas, o computador estava em perfeito estado e fiz os ajustes novamente.

O que percebi depois foi que minha surpresa (revolta) não era exatamente porque aquilo estava acontecendo, mas porque estava acontecendo comigo. Se alguém me contasse que passou por isso, ou eu mesma visse alguém tendo que lidar com esse contratempo, é muito provável que eu não ficaria tão aborrecida e revoltada; sentiria alguma empatia e tentaria ajudar, mas nada igual ao que senti.

As Escrituras, como um espelho magnífico que nos faz ver o que de outra forma não veríamos, me mostrou que aquela expressão de aborrecimento seguida de reclamações é pecado, e o nome que Bíblia dá a esse pecado é murmuração. A murmuração provém da incredulidade e se expressa em amargura. Minhas reclamações eram fruto da minha incredulidade. Eu pensava: “Deus não evitou que aquilo acontecesse e agora que aconteceu, é provável que Ele também não me ajude, pois o computador não liga mais, eu perdi meu trabalho”. De fato, Ele não me ajudou da forma e na hora que eu queria, mas sua ajuda veio quando o computador foi concertado no mesmo dia, eu terminei o trabalho e entreguei no prazo. Naquele dia, eu aprendi uma grande lição.

O apóstolo Paulo exortou os filipenses a evitarem a murmuração:

“Fazei todas as coisas sem murmurações nem contendas; para que sejais irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus inculpáveis, no meio de uma geração corrompida e perversa, entre a qual resplandeceis como astros no mundo” (Filipenses 2:14-15)

Eles deveriam fazer todas as coisas sem incredulidade e amargura, e o contexto dos primeiros cristãos era bem diferente do nosso. Eles tinham que lidar com questões como perseguição e martírio, não simplesmente o imprevisto de uma falha em um equipamento eletrônico, mas ainda assim, foram exortados a viverem sem murmurar.

Vejamos alguns dos males da murmuração:

1. Murmurar nos faz desvalorizar as bênçãos que Deus já nos deu: Lembram o que narra o capítulo 14 de Números? Depois de ouvir o relatório dos espiões, o povo ficou aterrorizado com as noticias, choraram e murmuram pedindo para voltar para o Egito. O Senhor os havia libertado da escravidão e estava prometendo presenteá-los com uma terra fértil, mas por causa da incredulidade (Núm. 14.11), desprezaram essas bênçãos e valorizaram a escravidão ao desejarem retornar a terra do Egito. 

2. Murmurar nos torna mau humoradas e amargas: Perdemos a doçura e a esperança de que as coisas podem ser mudadas, ficamos resmungonas e insuportáveis, chegando mesmo a ser descortês com as pessoas a nossa volta.

3. Murmurar nos leva a colocar a culpa da nossa insatisfação sempre nos outros: Seja o que for que nos sobrevém, colocamos a culpa nas pessoas, nas circunstâncias, na vida, no universo, e até mesmo em Deus. Temos uma imensa dificuldade em perceber que a maior parte dos nossos problemas é responsabilidade nossa. As pessoas podem até nos afetar nos fazendo algum mal, mas quem decide como vamos lidar com isso somos nós, não os outros.
4. Murmurar nos deixar cada vez mais ingratas: Em Números 11.4-9, vemos os israelitas reclamando do maná, a provisão alimentícia que o próprio Deus lhes dava, porque desejavam comer os peixes e as cebolas do Egito. Não estavam agradecidos porque tinham o que comer, estavam reclamando porque a comida não era a que eles desejavam.

A murmuração é algo sério e Deus a considera como sendo dirigida diretamente contra Ele (Núm. 14.26-29)1. Para o nosso bem, não devemos ignorar a gravidade desse pecado. No entanto, é importante que não confundamos murmuração com lamentação.

Lamentar não é um ato pecaminoso. Na Bíblia mesmo há um livro só de lamentos (Lamentações de Jeremias), e vários salmos expressam lamentos, sejam comunitários (Sl 12, 44, 58, 60, 74, 79, 80, 83, 85, 89*, 90, 94, 123, 126, 129) ou individuais (Sl 3, 4, 5, 7, 9-10, 13, 14, 17, 22, 25, 26, 27*, 28, 31, 36*, 39, 40:12-17, 41, 42-43, 52*, 53, 54, 55, 56, 57, 59, 61, 64, 70, 71, 77, 86, 89*, 120, 139, 141, 142). 

O lamento é a expressão da dor de alguém que confia em Deus, que espera pelo agir d’Ele, mas enquanto Ele não age a pessoa exprime sua dor em choro, gemidos e palavras. A Bíblia não nos proíbe de lamentarmos, de expressar nossa dor, mas quando começamos a duvidar do amor e da bondade de Deus para conosco, ficamos amarguradas e começamos a reclamar, estamos murmurando.

Precisamos seguir as instruções bíblicas para poder evitar a murmuração, e uns dos mais poderosos antídotos contra esse pecado é a fé e a gratidão. É isso o que tenho aprendido. A confiar no meu Deus, descansar em Sua soberania, me alegrar em Seu amor, usufruir da bondade que se manifesta dia após dia e ser grata pela maior de todas as bênçãos – Ele mesmo. Para nossa felicidade, não podemos minimizar tudo o que Cristo é para nós. Se fizermos isso, os problemas mais banais se tornarão grandes e poderosos o suficiente para nos esmagar e tornar nosso coração incrédulo e amargo.

A nós é ordenado em I Tessalonicenses 5.18:

“Sede gratos por todas as coisas, pois essa é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco.”

Esforcemo-nos para isso, e nos alegremos com as bênçãos que somente um coração grato pode reconhecer e usufruir.

Sonaly Soares
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1Jeremiah Burroughs – A murmuração irá te destruir.
* Há certa dificuldade em classificar esses Salmos, porque eles poderiam se encaixar em mais de uma categoria, por serem de tipos mistos.

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